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Blog da Desenvolver

A celebração do capacitismo

2019 chegou. Tivemos, em primeiro de janeiro, a cerimônia de posse do presidente Jair Messias Bolsonaro. Aproveito a ironia de seu segundo nome para relembrar o quão profético eram os retrocessos que começaram mesmo antes de sua posse (anúncios sobre o fim do Ministério do Trabalho, retirada da Funai do Ministério da Justiça, demarcação de terras indígenas pelo Ministério da Agricultura, decreto para facilitar o acesso a arma de fogo, manutenção da EC 95, saída do pacto de migração da ONU, fim do combate a violência de gênero – que se traveste em combate a “ideologia de gênero” – e por aí vai). Mesmo assim, bastou um discurso em libras para muitos afirmaram que havia um sopro de esperança nesse novo governo. O que me pergunto é: esperança em quê?

Gostaria de propor uma reflexão hipotética: imagine por um instante que Michelle Bolsonaro, em seu tão ovacionado discurso, tirasse uma bandeira LGBT e abanasse ao público. Pensou? Agora imagine por um momento que ela, em uma língua de etnia indígena, dissesse três ou quatro frases de efeito. Além de parecer absurdo, mesmo que isso ocorresse, seria suficiente para convencer LGBTs e indígenas que o governo de seu marido garantiria seus direitos? Será que três ou quatro frases seriam suficientes para minimizar tudo o que foi dito em campanha ou nos 28 anos de seu mandato enquanto deputado federal?

Ouso dizer que a resposta negativa é óbvia… Menos quando o discurso é direcionado a quase 25% da população que segue privada estruturalmente de sua própria dignidade. Uma prova disso é nos cobrarem gratidão e celebração de quem só reconhece nossa participação e “utilidade” em cultos de determinada religião. Por que o “chamado de Deus” da primeira-dama deveria nos comover, quando o seu Deus é excludente e reforça a deficiência como Sua ausência ou algo passível de cura, reforçando assim um discurso que nega nossa identidade? Não somos terra a ser “conquistada” e dominada. Saibam que o exercício da nossa cidadania, assim como o de outros grupos, não é negociável.

Aos defensores de Michelle Bolsonaro, deixo minhas perguntas: vocês acham que é possível defender o direito das pessoas com deficiência sem políticas afirmativas e benefícios sociais? Vocês acham que é possível garantir o acesso ao mercado de trabalho com a continuidade da terceirização e a intensificação da precarização do trabalho? Pois é, a defesa da meritocracia de Bolsonaro e a extinção do Ministério do Trabalho são exemplos que abrem um tsunami para a perpetuação da miséria das pessoas com deficiência. Não se esqueçam que a extinção do Ministério do Trabalho, por exemplo, afeta diretamente a fiscalização da cota para pessoas com deficiência e das condições de trabalho, que inclusive garantem que trabalhadores não sofram acidentes que resultem em deficiência.

As decisões do presidente se sobrepõem a uma quebra de protocolo ensaiada, deixando nítido o lugar das pessoas com deficiência em seu governo.

Um discurso em libras não é capaz de anular a condenação das pessoas com deficiência a perda de seus direitos. Falar libras não diminui o fato de seu marido defender o fim do politicamente correto, quando esse é um dos poucos a garantir que não sigamos sendo reconhecidos como os inválidos. Dizer que defende as pessoas com deficiência não é suficiente frente ao fato de seu marido ter como carro chefe do seu governo o fim do controle de armas, sendo que elas são um dos principais instrumentos que marcam nossos corpos com a deficiência.

Não adianta dizer que fará caridade com as pessoas com deficiência quando o que exigimos é o entendimento de que somos seres detentores de direitos. Garanto que discursos vazios, carregados de lágrimas e confetes, não nos libertam… ao contrário, nos aprisionam ainda mais no tão ignorado capacitismo.

Não precisamos que ninguém fale em nosso nome quando temos e batalhamos por nossa própria voz.

Militante dos direitos das Pessoas com Deficiência Psicóloga, mãe e pessoa com tetraplegia


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