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Blog da Desenvolver

Seguiremos!

 

Essas eleições fizeram eu me aproximar ainda mais da minha condição enquanto pessoa com deficiência. Ou melhor, sobre qual é o lugar destinado a mim e a minha fala enquanto mulher com deficiência.

Durante a campanha não faltaram expressões como “tu é cego em acreditar no candidato x”, “não adianta falar contigo, pois tu parece surdo”, “tu tem uma dificuldade cognitiva, não é? Só pode”. Além disso, houve menções ao fato do presidente eleito estar com uma bolsa de colostomia ou de seu filho, pelos absurdos ditos, ser “retardado”. Fora esses exemplos, até hoje o fato do presidente Lula não ter um dedo segue como motivo de piada.

Bom, as perguntas que me faço diante desses fatos são: o que leva alguém resumir a deficiência à incapacidade? Por que a deficiência segue sendo sinônimo de ofensa? Por que, mesmo entre os que se dizem progressistas, esse tipo de discriminação segue sendo minimizada ou entendida como “piada”?

As ofensas aos quilombolas, o ataque aos direitos das mulheres, a ameaça aos indígenas e LGBTs não seriam os motivos adequados para questionar Bolsonaro?! Me fizeram acreditar que não, afinal chamá-lo de “saco de cocô” pareceu ser “mais promissor”.

Outro exemplo é a futura ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos (poderia começar por aí, mas deixarei para as próximas). As acusações de sua ONG, que envolvem tráfico e sequestro de crianças, ficaram em 2º plano diante a declaração da pastora “louca” que viu Jesus em um pé de goiaba (após querer se suicidar aos 10 anos de idade, devido aos estupros que sofreu dos 6 aos 8 anos por pastores de sua igreja). Isso te parece engraçado? Pra mim é só a perversidade com que submetem meninas/mulheres nessa cultura misógina, já que me parece mais lógico nós indagarmos o quanto o seu fundamentalismo religioso submete outras crianças a casos semelhantes ao seu, do que fazer chacota de sua dor.

O que quero trazer nesse texto é que mesmo entre os que se dizem defensores de direitos humanos, há a desconsideração da humanidade das pessoas com deficiência. Como já dito em outro texto, há uma dificuldade em compreender as pessoas com deficiência pra além de sua condição, que é apenas uma característica entre um universo de identidades. Afinal, será que ser uma pessoa cega, surda, com deficiência intelectual ou mental te torna incapaz de exercer a empatia, tolerância e o respeito?

Durante a eleição, questionei uma pessoa sobre o uso da palavra cego como sinônimo de intolerância. A primeira resposta que tive foi que essa não era a sua “intenção” e, na sequência, veio a afirmação de que eu era “muito agressiva”. Até quando nossa dor será medida pela intenção/autorização do outro? Até quando teremos nossa fala desvalidada por ela não corresponder ao que o outro espera/limita?

Mais do que despertar indignação, isso me fez refletir sobre o quanto essas mesmas pessoas, que se escondem através da imagem de desconstruídas e dizem dar sua voz as minorias, se esquecem que ninguém precisa de voz, mas sim de uma escuta ativa e o respeito/reconhecimento à sua existência.

O discurso de ódio e a intolerância estão mais próximos do que nos permitimos observar. Em paralelo a nossa articulação e trabalho em conjunto para enfrentar ameaças que virão em 2019, precisamos entender que a luta pelos direitos humanos perpassa pela garantia de que todas e todos sejam compreendidos como humanos.

A democracia é um exercício contínuo e em tempos onde a razão parece ter se perdido, precisamos reforçar que não está na deficiência a origem da crise civilizatória que atravessamos.

Seguiremos atentas (os) no ano que começará! E seguiremos assim pelo tempo que for necessário.

Militante dos direitos das Pessoas com Deficiência Psicóloga, mãe e pessoa com tetraplegia


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