Script de execução do slideshow, pode ser visualizado normalmente.

Consultoria em Inclusão & Diversidade

Menu do usuário

Menu de acessiblidade

Blog da Desenvolver

PAI DE MENINA

4h da manhã e eu ainda não consegui escrever nada que fizesse algum sentido, só algumas frases soltas, conceitos pra pesquisar, quase vontade de encontrar um texto pra copiar. E nem só pra copiar e entregar, tipo “tá pronto, tô livre”, mas pra encontrar um caminho concreto, uma resposta. Às vezes é difícil escrever sobre o que nos é óbvio e cotidiano… Bom, vamos voltar brevemente no tempo, num acontecimento específico, um dos marcos de transformação (contínua) da minha vida.
-É uma menina!
Foram as palavras da médica que fazia a ecografia. Foi lindo, desejava ouvir exatamente essas palavras. Não queria muito saber antes do nascimento se era menino ou menina, mas desejava uma menina. Acabei concordando que a médica dissesse e fiquei muito feliz.
Mas o que realmente é ser pai? Se for responder a partir da minha (não) vivência com o meu, diria que ser pai é deixar duas crianças com a mãe, morar em outro estado, não pagar pensão e tá tudo certo. Talvez estive aí parte do meu desejo de ser pai, querer fazer diferente. Mas isso não responde.
Acredito ter idealizado a paternidade, imaginado que tudo seria amor e compreensão. Bobagem, nenhuma relação é assim, ou se existe, nunca ouvi falar. Sendo bem honesto, eu queria mesmo a parte boa e divertida, não as responsabilidades. Mas o que me chateia mais nisso é ter me idealizado muito enquanto pai. Nesse contraponto com o meu, eu seria o melhor, estaria presente sempre, faria tudo certinho, mas na prática ferro as coisas todo santo dia. Principalmente quando bate a canseira, aí viro criança birrenta em meus plenos 34 anos. É um baita problema quando uma criança é responsável por outra.
Tem alguns erros que chegam a doer quando me toco, e poxa vida, como é difícil olhar pra minha filha de cinco anos e admitir que fiz cagada. É claro que faz parte do jogo, até bobo colocar isso de tão óbvio, mas pensa na sensação quando bate o entendimento, é muito ruim. Não estava nos meus planos passar por coisas assim, não constava na idealização.
Bom, como vivo em sociedade e nem sempre as pessoas que participam dela são exatamente sensatas (via de regra homens e não me excluo), por ter uma filha, acabo ouvindo comentários como “é fornecedor, então?”, ou “vai ter que ter cuidado com os meninos agora”. A ideia da sexualização de crianças já é suficientemente criminosa, quem pensa na possibilidade de uma criança ser mercadoria pra ser fornecida? Não é “só uma piada”, é ofensivo, é de fato criminoso. Já a frase sobre ter cuidado com os meninos, essa sim merece mais atenção, não no sentido de querer ter uma filha pura e casta, e defender ela dos meninões que só querem se aproveitar dela, mas porque nós homens somos forjados idiotas desde a mais tenra infância. E depois decidimos abraçar a idiotice como verdade.
Como vou poder proteger minha filha? Quais as ferramentas que preciso passar a ela pra que tenha menos chances de passar aperto em relações abusivas? É difícil isso. Ser pai é difícil, escrever sobre é difícil. Quando nós, pais, vamos levar a sério nossa função e não querer só a parte boa? Podem até pensar que estou generalizando e quem pensa assim acertou em cheio, porque geralmente somos incompetentes nas nossas obrigações paternas.
Enfim, não é um texto pra xingar ninguém, pra mim é só constatação da realidade. Não sei definir o que é ser pai, não tive essa experiência com o meu, já passei anos sem falar com ele na minha infância e adolescência. O mais perto que tive de pai foi meu padastro, que sinceramente poderia ser trocado por uma torradeira que seria mais útil. Também não conheci nenhum que eu olhe e diga “esse cara merece a medalha do esforço”.
É triste demais isso. Olhar em volta e não ter uma referência, tem que pegar um pouquinho de um, um pouquinho de outro e tocar a barca. E ser pai de menina trás toda essa carga de medo do mundo como se apresenta. Como lidar com isso? Que loucura a gente tá fazendo.
Obviamente deve ter pais maravilhosos, mas não conheço e nem tenho tanto interesse nas pessoas que estão fora da curva, me interesso com o ordinário, o comunsão, porque é esse que tem aos montes e é esse que toca o mundo.


Os comentários estão desativados.