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Blog da Desenvolver

Me amar cura

 

Fui convidada a participar de um sarau com o tema “me amar cura”, na perspectiva da sexualidade. Como já havia dito, fui vítima de bala perdida aos 16 anos de idade, quando recém começava a conhecer o meu corpo.

Quando sofri o acidente, a primeira lição que aprendi foi: teu corpo não te pertence mais! No hospital, enquanto retomava a consciência pós-acidente, lembro que técnicos de enfermagem chegaram pra me dar banho. A lesão tirou minha sensibilidade do ombro pra baixo e a idéia de homens verem e tocarem meu corpo, principalmente partes que eu não sentia, me apavorou. Aos prantos, pedi para minha mãe que não permitisse isso. Ela argumentou, insistiu e defendeu que meu pedido fosse respeitado… tentativas em vão. Ali percebi que meu corpo havia sido tutelado, as decisões sobre ele não me pertenciam mais.

A partir daí, minha percepção passava pela perspectiva médica, o que me fez delegar minhas escolhas à vontade e conhecimento do outro. A forma de me vestir, prender o cabelo, me colocar no mundo… Me desconectei de mim mesma, como se essa fosse a única forma de sobrevivência.

Meu interesse sobre as minhas novas sensações pareciam uma chama prestes a apagar. Eu me resumi (ME RESUMIRAM?) a deficiência. Lembro que na rede Sarah, onde fiz minha reabilitação, fui informada que era possível ter relações sexuais. Ninguém me falou sobre prazer, mas ao menos eu poderia ser útil pra alguém. Útil? Pois é, pra quem passou a ser reconhecida como aleijada, deficiente, doente e INVÁLIDA, utilidade é o máximo que eu conseguiria prospectar.

Meu corpo não me pertencia. E algum dia me pertenceu? “Vitória tu está gordinha”, “Vitória tu está ridícula de magra”, “tem certeza que vai comer tudo isso”, “essa roupa?”, “ninguém vai te querer assim”. A expectativa inalcançável destinada a nós reflete o ódio de quem não suporta o fato de sermos MULHERES.

Não tive referências de outras mulheres com deficiência. Falando nisso, onde estamos? Teatros, espaços políticos…? A cada quatro mulheres, uma tem deficiência. E onde estamos???

A imagem que eu tinha, reflexo do capacitismo – que está para as pessoas com deficiência como o machismo está para as mulheres -, é que não tínhamos vida. Por muito tempo “não tive provas, mas tive convicção” de que a solidão era o que me cabia… e assim me privei de mim mesma.

O tempo passou e fui me fortalecendo através da militância e do encontro com pessoas que compartilhavam vivências próximas as minhas. Eu não estava só! Descobrir que não se está só é revolucionário. Descobrir que eu não estava só foi o começo do meu processo de cura! O tempo foi passando, fui aprendendo a olhar pra mim e a reconhecer todas minhas potencialidades.

A gente não fala sobre sexualidade da pessoa com deficiência, a gente não fala sobre mulheres que não podem mais tocar em seus próprios corpos ou que desejam outros corpos. É difícil reconhecermos e reconhecerem que nosso prazer importa!

A redescoberta da minha sexualidade foi através da despatologização da minha identidade, inclusive por entender que meu corpo é político e também por isso completo.

Falando em completo, este corpo, que tantas vezes entendi como partido, gerou uma vida. GEROU VIDA!!! Como corpos que te permitem experimentar a vida, seja da forma que for, podem ser compreendidos como incapazes, feios, errados?

A descoberta sexual, mesmo com 33 anos de idade, ainda é um processo que conheço a partida, mas não faço idéia de onde será a chegada. Nossos corpos são feitos de possibilidades. Nós somos possibilidade!

 

Militante dos direitos das Pessoas com Deficiência Psicóloga, mãe e pessoa com tetraplegia

 

 

 

 

 

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