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Blog da Desenvolver

Canudos: usá-los ou não usá-los, eis a questão!

Essa semana, enquanto estava no banho, relembrei o quão maravilhosa é a sensação da água e o quanto ela me fez falta durante os 03 meses em que estive na UTI. Nesse período, ouso dizer, eu seria capaz de trocar qualquer coisa pela possibilidade de tomar um bom e longo banho quente.
Compartilho essa história para que possam ter dimensão do quanto ações corriqueiras para alguns, podem representar liberdade para outros.
Recentemente o assunto do impacto ambiental dos canudos plásticos ganhou intensa projeção. Houve uma imensidão de pessoas em defesa da proibição da venda e da disponibilização desse item que, para muitos, é supérfluo.
Trago mais um exemplo pessoal. Como tenho lesão medular alta, que compromete a minha sensibilidade, incluindo a parte das mãos, não sinto o quente ou o gelado. Resultado disso: 05 cicatrizes nas mãos, decorrentes de queimaduras.
Por um tempo, por não me sentir confortável em pedir para as pessoas me alcançarem xícara/copo na boca, principalmente no trabalho, abri mão do meu tão amado café.
Para muitos, principalmente os que não têm deficiência, isso é algo tão simples, mas é na simplicidade do dia a dia que sentimos os impactos das limitações que possuímos ou que nos são impostas.
Pessoas com paralisia cerebral, por exemplo, podem não ter coordenação motora para tomar algo sem canudo. Outro exemplo são pessoas acamadas, que tem no canudo a possibilidade de se alimentar. Pessoas com tetraplegia, como eu, encontram no canudo a forma de controlar a quantidade e o tempo necessário em que querem tomar algo.
Importantíssimo discutir o quanto nossas escolhas agridem o meio ambiente, afinal essa agressão afeta a vida de todos nós… Mas, será que não seria interessante compreender que o que para alguns é um utensílio dispensável, para outros se trata de uma tecnologia assistiva?
Vou além. Não seria importante que todos nós, dentro das nossas possibilidades, repensássemos sobre nossas escolhas e comportamentos de consumo?
É evidente que precisamos diminuir o impacto ambiental da nossa existência, mas, por mais que o (não) uso do canudo seja um começo, com certeza a discussão não termina nele.
O processo de produção de lixo, saneamento básico, reaproveitamento do lixo como fonte de energia, consumo de carne e derivados… Enfim, opções para expandir o ativismo ambiental não faltam!
Para algumas pessoas, encontrar a opção do canudo em um estabelecimento representa segurança e autonomia. A garantia disso também não deveria dizer respeito a todos?
Voltando ao título do texto, sugiro o seguinte: o canudo é ou não NECESSÁRIO no teu dia-a-dia? Responda essa questão com consciência!

Obs.: Como já contei aqui no blog da Desenvolver, no início do ano fiz uma viagem a Montevidéu. Lá, durante um passeio e outro, encontrei um conjunto de canudos incríveis de inox. A felicidade que tive ao encontrá-los foi semelhante a um show de fogos de artifício. O kit custou em torno de R$ 60,00. Conto isso para relembrar que, mesmo quase 25% da população brasileira ter deficiência, ocupávamos em 2011 apenas 0,7% dos empregos formais. Fora isso, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) é de 01 salário mínimo mensal e, para recebê-lo, é necessário comprovar renda inferior a 1/4 do salário mínimo por pessoa da família. Ou seja, o que para uns é “60 pila”, para outros é uma quantia bem significativa. Além disso, a mudança precisa começar por nós, e não no outro que eu ignoro ter ao lado. Informação também é um tremendo privilégio. Não a use com moderação!

Militante dos direitos das Pessoas com Deficiência Psicóloga, mãe e pessoa com tetraplegia


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