Script de execução do slideshow, pode ser visualizado normalmente.

Consultoria em Inclusão & Diversidade

Menu do usuário

Menu de acessiblidade

Blog da Desenvolver

Responsabilização x privilégios

Recentemente um famoso youtuber fez um comentário racista com Mbappé, jogador de futebol negro. Como responsabilização, perdeu 10.000 inscritos nos 02 primeiros dias, porém, em seguida, ganhou outros 100.000.
Em 2017, um dos participantes do BBB foi expulso do programa ao agredir uma mulher. Como responsabilização, ainda em 2017, foi convidado a participar de outro reality show.
Um político brasileiro ganhou projeção nacional por suas frases carregadas de ódio e discriminação. Como responsabilização, está nos primeiros lugares em intenção de voto para presidência da república.
Esses exemplos me fizeram pensar sobre o quanto a tolerância aos nossos “erros” são proporcionais aos nossos privilégios. Explico. Muitos dizem que essas declarações/comportamentos são “piadas despretensiosas”. Outros, afirmam que levantar essas questões é “perseguição”. Há ainda quem diga que “sempre foi assim” e “todos sobreviveram”. Todos sobreviveram? Quem é esse “todos”?
Poderia citar inúmeros assassinatos covardes, que foram minimizados pelo CEP que as vítimas possuíam, ou enumerar diferentes casos de pessoas punidas por crimes que não cometeram. Esses são exemplos sérios e, infelizmente, corriqueiros em nossa realidade.
Não nos faltam situações diárias de homofobia, misoginia, capacitismo e racismo. Mesmo assim, as pessoas que as reproduzem são frequentemente apontadas como vítimas da situação ou, até mesmo, defensores da moral e dos bons costumes. Isso não é estranho?
Para entender melhor as “castas” que nos dividem, precisamos compreender os privilégios que possuímos. Ou ainda, quantas “segundas chances” temos acesso.
Por que o caso desses homens gera comoção, mas a de tantas outras pessoas, que levam consigo a injustiça como companhia, não?
A ausência de prejuízos profissionais desses homens, por exemplo, apontam para o poder inabalável que possuem e representam. O “pega leve” com seus crimes e agressões escancaram uma estrutura que adoece e mata.
Você já se perguntou/observou quantas mulheres estão adoecendo pelo acúmulo de responsabilidades e a falta de oportunidades? Já parou pra pensar quantas pessoas negras estão sendo massacradas diariamente? Ou, ainda, quantas pessoas com deficiência estão permanecendo em situação de violência, pois não possuem acesso ao mercado de trabalho e, consequentemente, autonomia financeira para romper com esse ciclo?
Quantos de nós, que estamos em desvantagem social, tiveram o privilégio da segunda chance? Quantos de nós ainda aguardam a sua primeira chance?
Faz sentido CONTINUARMOS sendo benevolentes com pessoas que propagam o ódio, mas, enquanto sociedade, não darmos chance a pessoas que sempre foram postas em lugares de inferioridade ou de expectativas heróicas inalcançáveis?
Precisamos estranhar essas estruturas, pois são elas que nos enclausuram e nos mantem distantes dos espaços de decisão.

Goste ou não, concorde ou não, as “opiniões despretensiosas” estão na ponta de uma linha invisível, que permeia os mais diferentes contextos, e nos faz justificar/minimizar crimes que acarretam muita dor e prejuízos.
Todos precisam ser responsabilizados pelos preconceitos que propagam, pois injusto é muitos continuarem “pagando” por crimes que não cometeram.
Reafirmo: a tolerância aos nossos “erros” são proporcionais aos nossos privilégios.
Eu estou disposta a repensar os meus, e você?

Militante dos direitos das Pessoas com Deficiência Psicóloga, mãe e pessoa com tetraplegia


Os comentários estão desativados.