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Blog da Desenvolver

Representatividade e lugar de fala

Comecei minha militância pelos direitos humanos há 13 anos. Ao decorrer deste tempo tive o privilégio de conhecer muitas pessoas e compreender, através delas, que o mundo é muito maior do que os meus olhos alcançam.
Como desconsiderar que minha deficiência foi gerada pelo descontrole de armas e desigualdade social? Como ignorar que minha sobrevivência, inclusive, teve a ver com privilégios como a cor da minha pele? Esses são pequenos exemplos da impossibilidade de desconsiderarmos os aspectos sociais que nos permeiam e o quanto nossas lutas se constroem e se fortalecem através deles.
Na medida em que construí novas identidades, nesse processo de troca e aprendizados, também passei a me sentir constrangida por privilégios e, de alguma forma, não compreender como somar na construção de uma realidade menos desigual. Diante de histórias marcadas por tantas injustiças, sofrimento e, sobretudo, resistência, qual poderia ser minha contribuição? Que papel eu poderia exercer diante de histórias tão grandiosas e representativas?
Como eu, que não vivencio o racismo, pobreza, xenofobia e lgbtfobia, por exemplo, poderia falar sobre esses temas?

 

 

Sempre busquei ter muito cuidado para não falar em primeira pessoa sobre vivências que não são minhas. Esse cuidado se reforçou ao ver muitas pessoas sem deficiência falando sobre possíveis dores e alegrias a partir de um lugar que não ocupam. Por exemplo, não me parece coerente eu falar sobre os constrangimentos e violências que sofro por ser uma mulher lésbica, sendo que não sou uma. Ao mesmo tempo, enquanto heterossexual, saber que tenho direitos garantidos que mulheres lésbicas não têm me aponta a uma desigualdade intolerável. Como ignorar discriminações que, ao observar o nosso contexto, se tornam cada vez mais óbvias?
Aí entra a importância do lugar de fala e a necessidade de diferenciá-lo da representatividade.
Enquanto militante do controle de armas, posso dizer que as maiores vítimas das armas de fogos são os jovens negros, mas não posso falar sobre a angústia de sair de casa e saber que a cor da minha pele me colocará em risco de morte.
Continuo reforçando que queremos e precisamos de muitos aliados para enfrentar o capacitismo, mas reforço que para falar sobre a vivência da deficiência, é necessário vivenciá-la. A representatividade pertence a quem sofre discriminações/privilégios pelas marcas sociais que possui. Lugar de fala é o reconhecimento de que falamos sempre de algum lugar. Precisamos trazer a consciência que lugar é esse e que privilégios/privações são decorrentes desse lugar. Posso (e devo) falar sobre o racismo, mas a partir do lugar de uma mulher branca, por exemplo. Compreendendo essas diferenças, te pergunto: já observaste como o mercado de trabalho é monocromático? Por não ter uma deficiência, quantas oportunidades foram possíveis pra ti? É possível continuar ignorando essas desigualdades? A quem essas desigualdades servem?
Enquanto sociedade, precisamos compreender nossos privilégios e a importância de ações afirmativas para o alcance de condições igualitárias. A deficiência faz parte da pauta de direitos humanos e para que alcancemos nosso potencial, precisamos que todos estes questionamentos venham à tona.
Reconhecer nosso lugar de fala é, sobretudo, reconhecer o racismo, machismo e o capacitismo que há em nós… e esse é o desafio mais importante, na minha compreensão, para busca concreta por uma realidade menos desigual.

Militante dos direitos das Pessoas com Deficiência Psicóloga, mãe e pessoa com tetraplegia


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