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Blog da Desenvolver

Muito a pensar, muito a fazer

 

Sempre aprendo ao ouvir mulheres. Ao escutá-las, me proponho a (re) conhecer novas realidades/perspectivas e repensar minha própria história. Em um desses significativos momentos, escutei uma mulher negra falar sobre as barreiras impostas na inserção das mulheres negras no mercado (não precarizado) formal e o impacto disso, inclusive na (des) mobilização em defesa de seus direitos trabalhistas.

Como defender algo que, além de distante, não me “pertence”? Ao ouvir algo que AGORA me parece óbvio, pude compreender quanto nossos privilégios nos descontextualizam. Quantas vezes já me senti incomodada com a falta de organização das pessoas com deficiência, desconsiderando que nossa estrutura social assegura nossa permanência à margem das decisões. O direito ao trabalho é muito mais próximo a mim, que tenho ensino superior e carro próprio, do que a alguém que, com a mesma condição física, não pôde concluir o ensino fundamental ou ao menos consegue sair de casa em segurança.

Como exigir a compreensão do impacto devastador da reforma trabalhista e da lei da terceirização, que abriram brechas para o descumprimento da lei de cotas, daqueles que, em decorrência de incontáveis barreiras, ainda não acessaram o trabalho formal?

Quantas de nós trabalham em cargos condizentes com sua funcionalidade e recebem um salário justo por isso? Quantas de nós, mães, já fomos questionadas sobre como conciliaríamos o trabalho, a maternidade e a deficiência, como se essas condições fossem incompatíveis entre si? Quantas de nós, mães, já fomos preteridas em vagas por conta disso? Diante de demissões em massa, quantas de nós não se sentem ainda mais ameaçadas, pois infelizmente nossas condições dificultarão ainda mais o “dar um jeito” em atividades informais? Sei que muitas mulheres se identificarão com essas perguntas, mas infelizmente, para a maioria de nós, sendo que só representamos 0,24% dos trabalhos formais (RAIS 2011), talvez a pergunta mais representativa seja: até quando permaneceremos sofrendo violência, já que a dependência física e financeira é a única “possibilidade” apresentada? Como lutar por direitos quando nem ao menos sabemos o que eles representam?

Com certeza a ameaça e a perda de direitos são fatores que necessitam mobilização e resistência, mas precisamos compreender a realidade de grande parte das pessoas, principalmente mulheres, com deficiência e construirmos pautas políticas que possam promover a inclusão não apenas de exceções, mas da maioria de nós, de todos nós.

Em um mês que se comemora o dia do trabalhador, “abolição da escravatura” e o dia das mães, é preciso, além de compreender os impactos da nossa ausência nessas discussões, papeis e espaços, nominar a quem serve essa estrutura excludente que afeta diferentes esferas, que perpassam desde o reconhecimento de direitos sexuais e reprodutivos (o que impactaria em menos abusos e na garantia do direito à maternidade, por exemplo) ao direito ao trabalho.

Como já citado em textos anteriores, a deficiência está associada diretamente a injustiças sociais e, ao falar sobre elas, não podemos desconsiderar a relação entre gênero, raça e classe.

Ao sabermos que as mulheres são maioria dentro do segmento da deficiência, ao sabermos que a maior parte da população com deficiência se encontra na pobreza e que pessoas negras, pela nossa estrutura racista, ocupam esse lugar, como podemos discutir tão pouco essas intersecções?

Quem são as pessoas com deficiência que falam por nós? Quem é esse “nós”?

Ao continuarmos a pensar a deficiência através da exceção, fortaleceremos o discurso de superação, que individualiza uma realidade social e nos impede de avançar na sua abordagem e compreensão.

Que maio nos provoque questionamentos e mudanças, pois não há muito a comemorar, mas há muito a conquistar. Seguimos!’

 

Militante dos direitos das Pessoas com Deficiência Psicóloga, mãe e pessoa com tetraplegia


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